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Comissão de Tecnologias entrevista Rui Guimarães

Os deputados da Comissão de Tecnologias da informação entrevistaram o diretor clínico do Hospital de Barcelos

Na sua opinião, em que estado de informatização se encontram as Instituições de Saúde em Portugal? Quais são os nossos pontos fortes, pontos fracos e oportunidades que identifica neste processo de informatização?

Nas instituições de saúde em Portugal encontramos situações muito distintas. Há ainda organizações com largura de banda incrivelmente estreita com máquinas obsoletas e outras organizações cujo estado da informatização não é sequer tema de preocupação.
A par do ferro que constitui o hardware há que reconhecer uma grande evolução das ferramentas propriamente ditas colocadas ao serviço dos profissionais cuja diversidade tem permitido ganhos interessantes colocados também ao dispor dos doentes. Diria que este é o ponto mais forte que identifico neste processo, o envolvimento do doente, no acesso à sua própria informação e à partilha dessa informação pelos diferentes pontos do sistema por onde o doente se movimenta.

Como pontos a melhorar e claramente como oportunidade destacaria a interoperabilidade que os diferentes sistemas terão que atingir. Não é possível que cada sistema exista separado dos restantes e que os outputs sejam meros relatórios fechados em pdf. É importante que os dados circulem e interajam nos diferentes sistemas e que permitam a sua utilização, permitindo o processo de aprendizagem e melhoria contínua.

Muito se tem falado na questão da literacia digital em saúde dos Portugueses como uma barreira de difusão de sistemas de informação em saúde. Na sua opinião, qual a dimensão deste problema e que medidas adotaria para minimizar o seu impacto?

A literacia digital em questões de saúde assume, na minha opinião duas dimensões: por um lado um desconhecimento em relação à área da saúde e por outro uma enorme desinformação que hoje se faz através dos meios digitais.

Preocupa-me o facto de não ver este problema resolvido com a mudança geracional pela quantidade de desinformação que circula, como é exemplo a questão atual das vacinação.

Programas como o “SNS + proximidade” estão a procurar o aumento da literacia digital ao mesmo tempo que promovem a integração do percurso dos doentes. A educação e a promoção da saúde devem ser fortes apostas com responsabilidade transversal na sociedade.

O investimento no aumento e promoção da literacia em saúde pode não ser tão popular como a inaugurar um hospital mas deve ser levado de forma muito responsável pelos ganhos associados para a sociedade em geral.

A interoperabilidade de sistemas de informação em saúde e a ausência de políticas sobre modelos de governança dos sistemas de informação são apontados como problemas críticos no sector da saúde. O que pensa destes temas e o que sugere?

Recentemente participei numa reunião onde os médicos discutiam megabytes e os informáticos os valores de referência da hemoglobina. Ora parece-me que há qualquer coisa de profundamente errado.

Na minha opinião os profissionais devem preocupar-se em definir os requisitos necessários para os sistemas e os informáticos devem assegurar o cumprimento das soluções segundo essas necessidades.

A interoperabilidade é uma responsabilidade que pertence a todos e que deve ser assumida como uma prioridade ainda que contra as vontades e caprichos existentes.

Que recomendações nos pode deixar para melhorar o acesso, qualidade e partilha dos dados em saúde dos Portugueses?

Deveremos caminhar para um sistema que envolva e responsabilize cada vez mais os doentes no seu percurso. O sistema deve ser o mais transparente possível fomentando a partilha de dados que permitam escolhas informadas aos utilizadores.

O portal do SNS parece-me uma excelente ferramenta de transparência de toda a atividade que decorre do acesso e qualidade em saúde.

A recente regulamentação do processo de acessibilidade a consultas, cirurgias e MCDT’s, a divulgação dos tempos de espera junto dos doentes e dos médicos de família, são medidas que promovem uma maior flexibilidade e que procuram aumentar a capacidade de resposta do SNS, procurando nas diferentes unidades estratégias de complementaridade e partilha de recursos com vista a uma resposta mais eficiente.

A partilha de dados em saúde é um tema sensível e que nos deve preocupar como prestadores e como utilizadores. Os dados de saúde são hoje um tema sensível no capítulo da cibersegurança; esta responsabilidade de fiel depositários dessa valiosa informação não nos deve demover de promover soluções de partilha que procurem uma melhor resposta aos doentes. Por outro lado a desagregação da informação promove a multiplicação de actos e exames médicos e não rentabilização de uma visão integradora do percurso dos doentes.

Por último, em matéria de TIC's em saúde, identifique uma área prioritária para se atuar?

Gostava de reforçar a ideia de que para termos boa tecnologia de sistemas de informação em saúde é necessário investir na sensibilização, comunicação e envolvimento das pessoas que as usam, e que esse investimento reverte, no fundo, para a criação da tecnologia em si.
Destaco por isso o envolvimento e alinhamento que é necessário ter com os utilizadores; de que vale a pena criar a melhor ferramenta se ela depois não é usada, nem percepcionada com útil?

Pode parecer um pouco estranho pedirem uma área de investimento prioritário das TIC’s e obterem uma resposta de investimento em pessoas, mas a minha curta experiência tem demonstrado que é nas pessoas que deve estar o nosso principal investimento.

Gostaria de deixar as 7 ideias sobre a transformação digital na saúde, que tinha referido ao telefone:

https://www.computerworld.com.pt/2017/04/18/sete-ideias-sobre-transformacao-digital-na-saude/