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COMISSÃO DE TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO ENTREVISTA RENATO MAGALHÃES

Os deputados da Comissão de Tecnologias da Informação entrevistam o especialista em informática, diretor do Serviço de Informática do IPO do Porto

Na sua opinião, em que estado de informatização se encontram as Instituições de Saúde em Portugal? Quais são os nossos pontos fortes, pontos fracos e oportunidades que identifica neste processo de informatização?

Na última década verificamos um aumento significativo da informatização nas Instituições de Saúde. Hoje praticamente todos os hospitais têm processos clínicos eletrónicos, que inclui no mínimo, diário clinico, prescrição de MCDTs, prescrição de medicamentos e acesso às imagens médicas.

Como ponto forte é de destacar a Plataforma de Dados da Saúde e o Portal do Utente, que permitem a partilha de informação clinica entre Instituições do SNS e o acesso por parte dos utentes a informação clinica e clinica/administrativa. Como ponto fraco destaco a falta do registo de saúde eletrónico único do utente/doente, falta de regulação em matéria de desenvolvimento de sistemas de informação e dependência das Instituições de Saúde em relação aos seus fornecedores de sistemas de informação.

Muito se tem falado na questão da literacia digital em saúde dos Portugueses como uma barreira de difusão de sistemas de informação em saúde. Na sua opinião, qual a dimensão deste problema e que medidas adotaria para minimizar o seu impacto?

É sem dúvida uma barreira na difusão de sistemas de informação em saúde. De acordo com o Instituto Português de Estatísticas, em 2016, 72% dos utilizadores acederam à internet em mobilidade. Cerca de 2/3 das famílias portuguesas têm acesso à internet em casa. As pessoas não têm competências digitais para utilizarem as ferramentas que o sector da saúde tem vindo a disponibilizar para o acesso aos dados de saúde.

Para o utente/doente seria de garantir o registo na Plataforma do Utente, incentivado a partir de relações de proximidade dos utentes com unidades de saúde, farmácias e lojas do cidadão. Para o efeito seria necessária a disponibilização de quiosques ou outros dispositivos móveis, à semelhança do caso da banca com o ensino dos clientes na utilização do multibanco e o homebanking.

Para os profissionais de saúde é importante o envolvimento na conceção dos sistemas de informação na saúde. Os sistemas de informação não deverão ser utilizados apenas para o registo de dados mas sim orientados para simplificar o trabalho dos profissionais de saúde. Um profissional de saúde trabalha diariamente em média com 10 aplicações diferentes. Uma das medidas para simplificar o impacto da necessidade de utilizar aplicações seria adoção de layouts “standards”, à semelhança das ferramentas de escritório eletrónico em que existem várias e a usabilidade é semelhante. Em matéria de literacia digital seria de criar um plano de formação obrigatório em SI de Saúde.

A interoperabilidade de sistemas de informação em saúde e ausência de políticas sobre modelos de governança dos sistemas de informação são apontados como problemas críticos no sector da saúde. O que pensa destes temas e o que sugere?

A interoperabilidade de sistema de informação em saúde é fundamental. Nesta os standards que existem são suficientes, mas não existe é uma obrigação de implementação. A prática diz-nos que no dia-a-dia existem muitos problemas relacionados com a interoperabilidade porque a maioria dos fornecedores não têm os sistemas em conformidade com os standards, o que leva por exemplo, a inconsistências de dados ou dificuldade de realizar novas integrações. Os SPMS deveriam regular a interoperabilidade, definido regras mínimas e os sistemas de informação deveriam ser certificados/em conformidade.

Que recomendações nos pode deixar para melhorar o acesso, qualidade e partilha dos dados em saúde dos Portugueses?

Deveria existir um repositório de dados para o utente ter acesso a todos os seus dados de saúde, em linguagem simples para garantir a participação dos utentes. Para o efeito deverá ser criado o registo de saúde eletrónico único do utente/doente. Desta forma pode investir-se em medicina preventiva, sendo possível ao SNS saber por exemplo: quem foi vacinado, quem precisa, quem fez rastreios, ou seja conhecer o utente/doente.

Por último, em matéria de TIC's em saúde, identifique uma área prioritária para se atuar?

Uma área importante que deve ser trabalhada é a integridade dos dados e a obrigação dos fornecedores de software terem as aplicações certificadas por entidades externas.