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Comissão de Tecnologias entrevista Francisco Cabral

A comissão de Tecnologias de Informação em Saúde entrevista o Presidente da Associação Europeia para a Literacia e Promoção da Saúde e responsável pela área estratégica desenvolvimento de negócio do Serviço de Utilização Comum dos Hospitais

Na sua opinião, em que estado de informatização se encontram as Instituições de Saúde em Portugal? Quais são os nossos pontos fortes, pontos fracos e oportunidades que identifica neste processo de informatização?

Podíamos ter sistemas únicos, transversais, módulos mais interligados independentemente do tipo de serviço (médico/cirúrgico e não médico ou de suporte). Um médico tem muitas vezes necessidade de aceder a aplicações que aparentemente pouco têm a ver com o seu quotidiano, como por exemplo uma aplicação de stocks ou de RH. Acontece que os médicos programam, agendam cirurgias… É um bom exemplo. Das duas uma: ou a programação faz ligação imediata e automática com todos os setores envolvidos (desde requisição e preparação do instrumental cirúrgico, material de cirurgia, convocatória de recursos humanos, preparação de sala, preparação do doente para bloco, consulta de anestesia, etc.) ou a programação e o agendamento estão sujeitos a ineficiência (no limite, cancelamento e remarcação, mas em grande percentagem dos casos, faltas, atrasos na preparação do doente, falhas de qualidade).

Este salto temos que dar.

A informação clínica também não é ainda completa. Não migra desde a entrada do doente no sistema. Basta ver como contabilizamos os tempos de espera: a contagem não começa nos CSP e, no entanto, é lá que mandamos o doente iniciar o processo.

O lado forte é ter sido vencida há muito a cultura de resistência. Neste momento, todas as aplicações de melhoria da eficiência das tarefas do quotidiano têm margem de implementação e larga aceitação.

Médicos, enfermeiros e técnicos só protestam com a lentidão, sobreposição de écrans e necessidade de abrir mais do que uma aplicação, com múltiplas autenticações. E bem. Protestam relativamente aos aspetos críticos. Eles estão lá para prestar cuidados, estão focados nos resultados e apenas um pouco no processo. A estrutura não deve ser com eles. E o processo deve satisfazê-los, deve perceber como agem, logo, ser fluído. Os registos clínicos, sendo fundamentais, não são a sua tarefa core.


Muito se tem falado na questão da literacia digital em saúde dos Portugueses como uma barreira de difusão de sistemas de informação em saúde. Na sua opinião, qual a dimensão deste problema e que medidas adotaria para minimizar o seu impacto?

Os Portugueses estão educados para as tecnologias. Há boa adesão às tecnologias, os portugueses são cultos e pró-ativos. Pesquisam muito, usam motores de busca. No entanto, os estudos demonstram baixo nível de Literacia em Saúde. Demonstra que há problemas. Quais são? O isolamento? A infoexclusão de alguns? A idade? Não creio. É claro que há pessoas isoladas que têm dificuldade de acesso ao sistema sem ajuda. E que não dispõem dos meios. Mas para isso, temos intervenção social, o domicílio que deve incluir literacia. As equipas têm que ser multidisciplinares, preparadas. Os maiores problemas estão na credibilidade, na validade das fontes e na organização da informação. Neste momento, a literacia tem barreiras destas. Não físicas, não de falta de suporte, utilização de meios ou disponibilização.

Numa pesquisa, encontram de tudo: artigos científicos (poucos, não há muitos disponíveis sem assinatura e com contraditório relacionado e identificado que também é essencial), artigos de opinião, opinião publicada na imprensa, trabalhos e apresentações públicas. Faltam selos de certificação e falta segurança na pesquisa.

Há fórmulas interessantes testadas de aplicações e soluções para aumento de literacia. O nosso portal do SNS começou o trabalho. Com o Programa Nacional, Educação, Literacia e Autocuidados. Nunca se fez nada nesta dimensão antes. A literacia em Saúde, entendida como a capacidade para tomar decisões informadas sobre a saúde, na vida de todos-os-dias, e também naquilo que diz respeito ao desenvolvimento do Sistema de Saúde, é a referência nuclear deste Programa.

Mas o portal depende do registo. Não pode. O cidadão tem que estar lá por defeito. Eu sei que o utente tem que dar consentimento. Mas pode ser ao contrário, como na disponibilização de órgãos: quando não consinto, tenho a possibilidade de o dizer. Essa informação de disponibilização em local x deve ser obrigatoriamente dada ao cidadão. E é-lhe perguntada a sua vontade relativamente à mesma e aos respetivos limites (fins). E depois há que saber respeitar o não consentimento. E, de igual modo, saber respeitar o consentimento. A utilização de dados tem que ser muito restrita, confinada, limitada ao fim e esse fim ser importante para o cidadão porque ele assim o entende (e não porque terceiros querem, motivados por interesses próprios tantas vezes indevidamente assumidos «em nome» do utente).

O cidadão tem que ter a sua linha de apoio (já existe, saúde 24) mas tem também que poder recorrer a ajuda dentro do seu pequeno sistema, ou seja, quando se dirige ao seu CS, à sua USF….bom, primeiro, tem que entender os acrónimos….isto é linguagem nossa, dos profissionais da saúde….ULS….tem que ser clarificada e simplificada para o cidadão.

Creio que a responsabilidade de contato e gestão do processo do doente deve acontecer a um nível micro. As instituições prestadoras de cuidados têm que se organizar. Ser criativas. Fazer gestão do doente ou, ainda melhor, da doença e, dentro desta, do doente ou de grupos de doentes com afinidades. Identifiquem as limitações e barreiras. Customizem, personalizem o cuidado. O doente no centro, não é? Então e depois, nada se faz, é só uma frase repetida até à exaustão? Se há cada vez mais jovens e não jovens que usam um qualquer google map para conhecer cidades a pé porque não podem usar coisas semelhantes para se orientar dentro de uma grande unidade? Há sinalética visual (já usada) mas há muitas outras soluções mais atuais e umas não devem excluir as outras. Usem plataformas de literacia. Moderação por profissionais.


A interoperabilidade de sistemas de informação em saúde e a ausência de políticas sobre modelos de governança dos sistemas de informação são apontados como problemas críticos no sector da saúde. O que pensa destes temas e o que sugere?

Acho que temos um problema que é de caráter diferente: não temos verdadeiramente o mercado aberto à inovação. Há muitas restrições e limitações na migração de dados. Não temos sistemas em concorrência aberta. Temos problemas de dimensão.

Repare, integramos pouco, porque assim preferimos. Quando integrarmos, reduzimos exames de diagnóstico, por exemplo… isso interessa? Quais são os indicadores de negociação de um equipamento de exames? Nº de exames…. Errado. Sinalizamos erradamente. É claro que há vários tipos de contrato mas genericamente pagamos em função da produção. Errado. Devíamos pagar por qualidade, eliminação de redundâncias. Mas, e os consumíveis para cada exame? Também é negócio. Parece que não, mas está tudo ligado. Se integrar informação, não tem redundância…

Se quiser, dito de outra forma: os clássicos 25% de ineficiência dão imenso jeito. Nos exames, nas listas, nos tempos de espera.

Depois disto, podemos dizer que temos um problema de governança de SI? Não creio que o problema resida aí. Atualmente, tudo é possível em SI, a imaginação é o limite. Qual é a dificuldade hoje em dia em ter um processo clínico eletrónico, único dos CSP aos CCI?

Temos é muita imaginação para os limites…ora é o sistema de codificação ou a classificação das doenças e procedimentos ora é o peso da imagem….

Que recomendações nos pode deixar para melhorar o acesso, qualidade e partilha dos dados em saúde dos Portugueses?

Temos que quebrar as barreiras, investir na melhoria da remuneração dos profissionais para que estes se motivem para a solução e temos que lhes dar autonomia de decisão e possibilidade de continuidade, conclusão de trabalhos de implementação e possibilidade de os avaliar pelos resultados produzidos. Autonomia é responsabilidade. Têm códigos de conduta e há planos de corrupção e infrações conexas, vamos deixá-los fazer e reduzir a centralização.

Os profissionais é que têm que construir as soluções para centrar os doentes e resolver as suas angustias e episódios de saúde, logo, melhorar o seu acesso. Têm que ter uma perspetiva de salutogénese. Apostar na saúde antes de terem o peso da doença aguda no sistema. Quanto aos dados, os dados são do cidadão…Repare, a assimetria de informação vem a montante; depois de ultrapassada, os dados são do doente. Partilha se quiser e com quem quiser….desde que esteja informado. Nós só temos um problema de partilha de dados porque consideramos que os dados são do sistema e não do cidadão.

A dificuldade de aceder a dados para estudos científicos, faz sentido? Claro que não, há apropriação de dados e depois, quem dá autorização para utilização de dados (ou os restringe) são os «proprietários» das bases. Isto faz sentido? É uma confusão com poder, quem guarda os dados e deles dispõe. Temos que evoluir.

Há outro aspeto, aparentemente pouco relacionado mas relevante para projetos plurianuais, também na área dos sistemas de informação que envolvem integração de dados e portanto, investimentos avultados. É o consenso político. Consenso de Meios no SNS. Ou entendimentos de prazo alargado, prefiro entendimentos a consensos. Plurianualidade de orçamentos e investimentos. Já existe mas é confinada a áreas muito restritas.



Por último, em matéria de TIC's em saúde, identifique uma área prioritária para se atuar?

Integração da prestação de cuidados. CSP, Hospitais e Continuados devem utilizar sistemas com linguagem comum, mesma codificação de episódios e acesso a diagnósticos, prescrições e cuidados prestados (incluindo domicílio); empoderamento do doente: ele é dono dos seus dados, a informação pertence-lhe. Tem que ter um chip com a sua vida em saúde. No SNS e o que faz fora. Porque o que faz fora tem repercussões nos custos da saúde. Tem externalidades. Não posso admitir que porque é privado, não se disponibiliza. Ou por outra, se admito, então, fazendo parte do sistema de saúde não pode contudo ser prestador para o Serviço Nacional de Saúde.

É tudo uma questão de contrato.

Contratualizo sempre o que quero. Por isso temos a liberdade contratual. Vamos usá-la em defesa do SNS.