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"O SNS deu um contributo fundamental para os resultados que Portugal tem alcançado em estudos que avaliam o desempenho dos países na saúde"

O economista Ricardo Ramos cruzou a sua formação e a lista de comissões do Health Parliament e não teve dúvidas no momento da escolha. Há uma pergunta para a qual procura resposta, e o Parlamento da Saúde pode ajudá-lo: que ganhos económicos o setor da saúde, para além dos ganhos em saúde, pode trazer a Portugal? Fala, por exemplo, das exportações e tem ideias que depois explica poderem fazer parte das recomendações finais do HPP

O que o fez querer participar neste projeto?

Ter a possibilidade de participar ativamente no primeiro Parlamento português 100% dedicado à saúde foi o que despertou a minha atenção para o Health Parliament Portugal. A composição do Conselho Consultivo e as personalidades que serão curadores foram também fatores importantes para aumentar o meu interesse pelo projeto.

A perspetiva de fazer parte de um grupo de 60 jovens, entre os 21 e os 40 anos, que irão replicar a atividade parlamentar em torno do tema da saúde, com o objetivo de debater e emitir recomendações sobre o futuro da saúde no nosso país, foi determinante para querer participar neste projeto.

Tendo em consideração o meu interesse por políticas de saúde, pela reflexão e confronto de ideias, assim como pela procura de novas soluções, ter a possibilidade de participar no HPP é uma oportunidade única para discutir e intervir na elaboração de recomendações para o futuro de cada um dos seis temas em debate.

Em que medida a sua experiência pessoal é uma mais-valia para o Health Parliament?

Desde fevereiro de 2009 que exerço funções como economista na Direção de Avaliação das Tecnologias de Saúde, no INFARMED, I. P. Nesse âmbito, tenho participado em várias atividades, como a avaliação económica de medicamentos, integrada nos processos de comparticipação e avaliação prévia hospitalar, tendo também colaborado no desenho do Sistema Nacional de Avaliação de Tecnologias de Saúde e na sua posterior implementação, com destaque para a publicação do Decreto-Lei n.º 97/2015, de 1 de junho.

Desde 2014 sou o representante do INFARMED em vários grupos de trabalho internacionais: a European Network for Health Technology Assessment (EUnetHTA), a Health Technology Assessment Network (HTA Network) e o Medicine Evaluation Committee (MEDEV), e nesse âmbito participei nas discussões sobre os vários desafios que os sistemas de saúde, e mais concretamente a avaliação das tecnologias de saúde, estão a enfrentar na Europa, sendo essa discussão e análise de possíveis soluções extremamente enriquecedora, permitindo-me conhecer as melhores práticas da avaliação de tecnologias de saúde da Europa.

A nível académico, sou licenciado em Economia e mestre em Economia da Empresa e da Concorrência, tendo desenvolvido a minha tese de mestrado na área da saúde: “A internacionalização do setor da saúde: o caso português”. A minha colaboração com a academia não se restringe à atividade de estudante, tendo também participado em investigação, como co-orientador de várias teses de mestrado, para além de, quer a nível académico, quer a nível profissional, ser autor ou co-autor de mais de uma dezena de publicações na área da saúde.

Por tudo isto, acho que a minha participação no HPP será uma mais-valia pelo meu conhecimento do sistema de saúde português, mas também pela colaboração em grupos de trabalho internacionais.

Qual a melhor característica da saúde em Portugal? E a pior?

Em minha opinião, a melhor característica da saúde em Portugal é o Serviço Nacional de Saúde (SNS), por ser “universal e geral e, tendo em conta as condições económicas e sociais dos cidadãos, tendencialmente gratuito”, conforme definido na Constituição da República Portuguesa. O SNS, como peça fundamental do sistema de saúde português, deu um contributo fundamental para os resultados que Portugal tem alcançado em diversos estudos que avaliam o desempenho dos países na saúde, dando como exemplo o estudo Measuring the health-related Sustainable Development Goals in 188 countries: a baseline analysis from the Global Burden of Disease Study 2015, que avaliou o desempenho dos países nas metas relativas à saúde inscritas nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, tendo Portugal sido o 22.º país com melhores resultados dos 188 analisados.

Quanto à pior característica, para mim é o excesso de peso e a obesidade infantil, que tem registado os piores resultados na comparação internacional. No relatório Health at a Glance: Europe 2016, os resultados indicam que o excesso de peso e a obesidade infantil afetam 31% das raparigas e 25% dos rapazes portugueses, sendo que a média nos 22 países da União Europeia em análise foi de 21% para as raparigas e 23% para os rapazes. Embora estes resultados em relação aos adultos portugueses (16,6%) estejam perto da média dos 28 países da União Europeia (15,9%), torna-se importante implementar medidas para diminuir estes problemas nas crianças, pois os mesmos podem traduzir-se, no futuro, num aumento do excesso de peso e obesidade entre os adultos portugueses.

Dê uma ideia concreta para aplicar na saúde.

Consideando a diversidade dos seis temas em debate no HPP (doente no centro da decisão, ética, saúde mental, barreiras aos cuidados de saúde, tecnologias de informação em saúde e economia do conhecimento), os seis meses de duração do projeto serão essenciais para a discussão pormenorizada das ideias concretas de cada um dos participantes e permitirão aperfeiçoar as mesmas de modo que as recomendações sejam fundamentadas e robustas.

Tenho particular interesse no tema “Economia do conhecimento: como potenciar o impacto da I&D na economia?”, e tenho algumas ideias concretas para discutir neste âmbito. No entanto, penso ser mais adequado apresentar as mesmas nas sessões plenárias do HPP, de modo que, com o contributo dos restantes participantes, seja possível aperfeiçoá-las.