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"Um dos cuidados a ter daqui para a frente tem a ver com o controlo desta redução violenta de parceiros do SNS"

No grupo de laboratórios de análises clínicas que dirige, Rita Carmo Ferreira diz contribuir para a diminuição das barreiras no acesso aos cuidados de saúde. Por isso não teve dúvidas na escolha da comissão: um grupo de trabalho que tem sido “enriquecedor, tanto a nível pessoal como profissional”

O que a fez querer participar neste projeto?

A vontade de dar um contributo positivo para a área da saúde em Portugal.

A minha experiência profissional de 16 anos está e esteve sempre ligada à área da saúde e entendo que é mais vantajoso contribuir com ideias, sugestões e estudos do que criticar sem vista a uma solução que seja mais benéfica para os doentes, o SNS e o país.

Em que medida a sua experiência pessoal é uma mais-valia para o Health Parliament?

Sou diretora de um grupo de laboratórios de análises clínicas. Antes disso, fiz investigação na Alemanha, onde me especializei na área do vírus da hepatite C, e fui especialista na Johnson&Johnson Medical (área cirúrgica) em Portugal.

Atualmente, o grupo que dirijo apresenta uma enorme capilaridade de serviço a nível nacional, incluindo ilhas. Neste sentido, alguns temas, como é o caso das barreiras no acesso aos cuidados de saúde, dizem-me bastante, particular e profissionalmente, tanto na área do acesso dos doentes a tratamentos e dispositivos médicos inovadores, como na área das análises clínicas. As análises clínicas estão na base de cerca de 70%-80% das decisões clínicas ao nível do ambulatório e dos cuidados primários, pelo que a manutenção da sua capilaridade de serviço e tempo de resposta com qualidade devem ser os mais adequados possível.

Creio que estas preocupações, que resultam, naturalmente, da minha experiência profissional, são a grande mais-valia para o Health Parliament.

Qual a melhor característica da saúde em Portugal? E a pior?

A saúde em Portugal apresenta várias características muito positivas, entre as quais destaco a qualidade da formação médica e dos enfermeiros, o que se reflete na qualidade do serviço médico, que é elevada, acessível, gratuita para os utentes e relativamente barata para o Estado (quando comparada com outros países da OCDE. Veja-se, como exemplo quase extremo, que a Suíça gasta 22% do Orçamento do Estado em saúde, enquanto Portugal gasta cerca de 12%).

Considero que Portugal tinha e tem um dos melhores sistemas de saúde do mundo quanto à relação acesso/qualidade/custo per capita, mesmo após os cortes excessivos que se observaram no SNS nos últimos anos e cujo impacto negativo irá ser sentido e avaliado em anos vindouros. O SNS foi e ainda é essencialmente composto por quatro componentes, designadamente: a área pública, a social, os grandes grupos privados e um sector composto por pequenos privados.

Nos últimos anos, este sistema desequilibrou-se bastante, já que foi colocada em causa a continuidade do sector privado de pequena dimensão (que quase desapareceu) e que é tão importante pela proximidade e independência.

Creio que um dos cuidados a ter daqui para a frente tem, entre outros aspetos, a ver com o controlo desta redução violenta de parceiros do SNS e cujas consequências já se fizeram sentir, principalmente na redução de oferta e diminuição de acesso para os cidadãos, além do desemprego numa área tão especializada.

Em termos mais gerais, parece-me ainda que deve passar a haver uma maior responsabilização na tomada de decisões políticas, o que, naturalmente, fará com que haja um maior envolvimento dos vários agentes do sector (académicos, investigadores, operacionais e doentes) nesta tomada de decisões. Assim como em Ciência, as decisões políticas importantes na área da saúde devem ter por base estudos científicos rigorosos e devem ser alvo de avaliação externa.

Dê uma ideia concreta para aplicar na saúde.

Sem nos podermos esquecer de objetivos gerais, como a cobertura universal, o aumento das possibilidades de escolha, a liberdade de escolha do utente e o controlo da despesa em saúde através de sistemas de regulação e controlo eficazes e equitativos entre os vários componentes do SNS, existem várias ideias que podem e devem ser colocadas à discussão.

A primeira começa pela criação de mais grupos de trabalho como os que se criaram no âmbito do Health Parliament; grupos multidisciplinares que desenvolvam estudos isentos, sérios e credíveis, para que os mesmos sejam analisados aquando da tomada de decisões políticas.

Outra ideia concreta passa pelo aumento do investimento em prevenção primária e secundária, envolvendo as quatro estruturas do SNS que referi acima (a área pública, a social, os grandes grupos privados e um sector composto por pequenos privados.). Os médicos dos cuidados de saúde primários devem ver o seu papel reforçado e com mais autonomia de controlo e gestão, de forma a poderem realmente controlar e gerir o estado de saúde da população que servem. Por outro lado, os utentes, ao confiarem nestes prestadores, devem deixar de andar a saltitar entre vários prestadores de saúde (por vezes públicos e privados), com perda de informação e muitas vezes aumento de custos para o Estado.

Este aumento da relevância dos cuidados de saúde primários exigirá uma mudança de paradigma, até nas cabeças dos utentes, na medida em que estes ainda estão muito focados e orientados a recorrer aos hospitais sempre que se encontram em situação de doença, seja mais grave ou menos grave, o que representa custos mais elevados para o Estado e pouca eficácia no tratamento, controlo e prevalência de muitas doenças.