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Comissão de tecnologias entrevista Tiago Botelho

Tiago Botelho é economista, casado e com dois filhos. Bancário de profissão, tem mais de 10 anos em altas funções dirigentes na administração pública, oito dos quais no Ministério da Saúde. Atualmente é vogal do Conselho Diretivo da ARS do Algarve. Concluiu vários programas de formação pós-graduada, como a especialização em ciências económicas e empresariais; o Programa Avançado em Gestão Empresarial Hospitalar; o Programa de Alta Direção de Instituições de Saúde e o Curso Avançado de Gestão Pública. É autor de vários artigos de opinião na imprensa regional do Algarve e prefaciou três livros técnicos na área da saúde. Recebeu Louvor Público pelos serviços prestados enquanto Adjunto do Secretário de Estado da Saúde.

Na sua opinião, em que estado de informatização se encontram as Instituições de Saúde em Portugal? Quais são os nossos pontos fortes, pontos fracos e oportunidades que identifica neste processo de informatização?

O processo de informatização nas instituições do SNS conheceu evoluções assimétricas, quer entre tipologias assistenciais (com a maioria dos hospitais claramente adiantados), quer entre instituições da mesma tipologia. Após um arranque corajoso nos anos 90, atualmente, nos últimos 3 a 4 anos, assistimos a uma evolução exponencial. Assim, hoje temos áreas de excelência que comparam muito bem a nível mundial (como a prescrição eletrónica) e áreas que necessitam de evolução rápida (como o processo clínico eletrónico único). Temos como principal ponto forte, uma cultura dos profissionais que hoje é de exigência de mais e melhor informatização. Como ponto fraco, a dispersão de bases de dados e de informação. A oportunidade de ouro são os fundos comunitários que poderão ser usados para revolucionar os sistemas do SNS.

Muito se tem falado na questão da literacia digital em saúde dos Portugueses como uma barreira de difusão de sistemas de informação em saúde. Na sua opinião, qual a dimensão deste problema e que medidas adotaria para minimizar o seu impacto?

Não creio que seja um problema. A criatividade dos profissionais de SI/TI tem permitido desenvolver ferramentas de interação com os utilizadores – com destaque para as baseadas nos telemóveis – que permitem simplificar o acesso e o uso. Creio que é uma tendência que será aprofundada. Em alguns mercados de África, por exemplo, existem experiências sérias de digitalização dos serviços com muito sucesso, no meio de populações claramente menos desenvolvidas do que a portuguesa e isso demonstra a fragilidade do argumento da iliteracia digital.

A interoperabilidade de sistemas de informação em saúde e a ausência de políticas sobre modelos de governança dos sistemas de informação são apontados como problemas críticos no sector da saúde. O que pensa destes temas e o que sugere?

Julgo que existe alguma verdade nessa observação. Exige-se seriedade na abordagem do assunto e clareza relativamente aos diferentes papéis, com destaque na ponderação da extensão da intervenção dos reguladores (como a Comissão Nacional de Proteção de Dados), para se avaliar o custo/benefício do aprofundamento da transformação digital, que me parece ser uma inevitabilidade e que trará mais eficiência, sinergias e bem-estar à sociedade.

Que recomendações nos pode deixar para melhorar o acesso, qualidade e partilha dos dados em saúde dos Portugueses?

Em linha com o que atrás refiro, é indispensável aprofundar a partilha de informação porque só assim conseguimos diminuir o consumo indevido de atos (exames, análises e até consultas de especialidade), libertando orçamento dos poderes públicos, dos seguros, dos subsistemas e das pessoas, para se investir em progresso tecnológico, inovação e bem-estar. A partilha de dados permite centrar o ato médico na pessoa e não no ato em si, ou seja, qualquer profissional de saúde deve poder fazer uma avaliação holística do paciente, usando toda a informação que existe sobre ele, independentemente de quem é (foi) a entidade que requisitou, realizou, pagou ou guardou a informação, porque a informação clínica é do cidadão e não das instituições.

Por último, em matéria de TIC's em saúde, identifique uma área prioritária para se atuar?

A área prioritária é a integração de sistemas de informação.