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"Vi o Health Parliament como uma oportunidade promissora para delinear a política de saúde para o Portugal do futuro"

Eduardo Freire Rodrigues tem duas vidas, uma como médico no Hospital Beatriz Ângelo e outra como cofundador de uma start-up na área da saúde, a UPHILL. Sabe, por isso, a dificuldade que existe em transferir conhecimento em Portugal. Quer, com o HPP, “criar um ecossistema que facilite as transferências tecnológicas das faculdades para o mercado”. Porque, “quando isto não acontece, não só atrasa o desenvolvimento da empresa como também prejudica a economia portuguesa e o SNS”.

O que o fez querer participar neste projeto?

A oportunidade de repensar a saúde em Portugal sem constrangimentos ideológicos ou políticos, nem amarras ao passado. Em Portugal, como em muitos outros países do Sul da União Europeia, a oportunidade de reformar é atribuída frequentemente a grupos de trabalho compostos por individualidades experientes e com longas carreiras. A inovação e o pensamento livre inerentes aos mais jovens é por vezes excluída dos processos, o que é altamente paradoxal: os mais velhos definem o futuro dos jovens e estes conformam-se com o status quo.

Vi o Health Parliament como uma oportunidade promissora para delinear a política de saúde para o Portugal do futuro. Não a podia deixar escapar.

Em que medida a sua experiência pessoal é uma mais-valia para o Health Parliament?

Terminei no ano passado o mestrado integrado em Medicina na NOVA Medical School e sou atualmente médico interno do ano comum no Hospital Beatriz Ângelo, uma parceria público-privada com o Grupo Luz Saúde. Espero conseguir representar da melhor forma os meus colegas que estão ou virão a estar nesta posição: a interseção entre a formação médica e a atividade clínica.

Esta perspetiva dá-me discernimento para identificar lacunas formativas pré e pós-graduadas, que podem ser melhoradas incrementando a capacidade dos médicos recém-formados e o seu impacto na população. A formação contínua de todos os profissionais, acompanhada e avaliada, é um pilar mestre para garantir a qualidade dos cuidados em Portugal. No ano passado, fundei também uma spin-off de software em Saúde. Julgo que a transferência tecnológica das universidades para a saúde é ainda muito limitada e tem potencial para ser um importante motor de inovação no SNS se as dificuldades inerentes à contratação pública forem levantadas.

Qual a melhor característica da saúde em Portugal? E a pior?

A melhor, a universalidade. A pior, as barreiras ao acesso.

Ambas estão intrinsecamente correlacionadas e são mutuamente condicionadas. Quanto mais se tende para a universalidade, maior a pressão no sistema, o que prejudica o acesso. Por outro lado, quanto mais barreiras são postas ao acesso do paciente, mais limitamos a universalidade do serviço. Infelizmente, muitas destas barreiras são invisíveis. Um exemplo: uma urgência sobrelotada com tempos de espera de seis horas tem maior taxa de abandono. Isto ocorre porque os pacientes estão em observação na urgência porque não têm lugar no internamento, também sobrelotado. Para mantermos a universalidade, não nos podemos dissociar da sustentabilidade. Nós, jovens profissionais, devemos ser sensibilizados para praticar uma medicina focada no valor e afastados de uma prática defensiva, que raramente protege o cidadão, é lenta e geradora de desperdício. Por outro lado, há que resolver o problema a montante, reforçando a rede de cuidados de saúde primários como primeiro ponto de contacto.

Dê uma ideia concreta para aplicar na saúde.

Por vezes, não é preciso reinventar a roda. É necessário levar o cidadão a dar uso à posse e acesso facilitado que tem dos seus dados eletrónicos de saúde, visão que a SPMS tornou realidade com a carteira eletrónica da saúde. Isto consegue-se formando os profissionais para cultivarem esta relação tripartida entre médico, cidadão e saúde digital e investigando formas inovadoras, simples e intuitivas de apresentar dados de saúde.

O conceito de “cuidados centrados no cidadão” está no palco de todas as discussões em saúde. No entanto, em Portugal ainda tratamos os pacientes com excessivo paternalismo e omissão. Estamos a transitar para um progressivo empowerment do cidadão, que representa uma maior adesão a estilos de vida saudáveis. É responsabilidade de todos os atores neste sector promover a literacia dos pacientes e desenvolver estratégias para que os dados sejam mais facilmente interpretáveis, para que os cidadãos percebam que têm a sua saúde nas mãos.