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"O primeiro passo a ser dado deverá ir ao encontro de um verdadeiro diagnóstico dos cuidados de saúde"

Rui Palhais da Silva viaja de Manila, onde ajuda start-ups a crescer, de propósito para os eventos do Health Parliament Portugal e algumas ações da Comissão de Barreiras aos Cuidados de Saúde. O engenheiro mecânico a concluir doutoramento e com mestrado na área da biomédica diz que até agora o HPP “tem sido uma experiência interessante” e que naquela comissão em particular lhe agrada a possibilidade de olhar para “o acesso num todo”

O que o fez querer participar neste projeto?

O fator que mais me motivou a participar foi a possibilidade de alocar energia a algo que poderá ter impacto na indústria da saúde em Portugal, não só através de medidas públicas mas pela possibilidade de poder discutir temas sensíveis da indústria junto de decisores e líderes de opinião em Portugal. Depois, acredito vivamente no potencial que uma equipa multidisciplinar e motivada consegue produzir quando focada num objetivo concreto e com tempo definido para apresentar resultados. Havendo naturalmente vantagens na interação entre os participantes, não só no decorrer do projeto mas em projetos futuros, visto que muitos dos participantes são profissionais de saúde, gestores, engenheiros e/ou empreendedores.

Em que medida a sua experiência pessoal é uma mais-valia para o Health Parliament?

O Health Parliament é, na sua essência, uma task force constituída por pessoas de diversas áreas em prole de um objetivo comum, para criar uma visão de futuro para um conjunto de pilares na área da saúde em Portugal. A experiência que adquiri a gerir projetos de consultadoria em Portugal, China ou Bulgária, em empresas inseridas nas mais diversas indústrias (farmacêuticas, retalho, telecomunicações, logística, etc.), cimentou competências no suporte à transformação de organizações que vão desde gestão de equipas a conceitos técnicos de engenharia. Atualmente, como founder e CEO da SIMSURGE, ao mesmo tempo que frequento um PhD no Programa MIT Portugal, acabo por sentir que todas estas vivências e experiências me dão argumentos para discutir diversos temas, como inovação, melhoria, processos, pessoas e empreendedorismo.

Qual a melhor característica da saúde em Portugal? E a pior?

Mesmo tendo vivido fora de Portugal, acredito que a maior vantagem da saúde em Portugal continua a ser o acesso à mesma por parte de qualquer cidadão. Naturalmente que este acesso é limitado em diferentes escalões de tratamento, mas o acesso primário aos cuidados de saúde nunca é negado.

Não sendo um especialista e conhecedor de toda a estrutura da saúde em Portugal, sinto, no papel de utente, que talvez a pior característica seja a dificuldade em identificar quais são e onde ficam os melhores serviços de saúde, ou seja, não é fácil para um utente saber que o tratamento, consulta, fármaco, etc., são efetivamente as melhores escolhas custo/qualidade que ele pode ter. As opções continuam a ser muito suportadas no “passa palavra”, traduzindo o famoso anglicismo word-of-mouth, e ao que as seguradoras nos permitem aceder resultante dos acordos existentes entre instituições, o que nunca garante que a nossa opção seja de facto a melhor com base no que estamos dispostos a pagar.

Dê uma ideia concreta para aplicar na saúde.

Fazendo a ponte para o último ponto da questão anterior, olhando para o que acredito ser o maior problema da saúde em Portugal, creio que o primeiro passo a ser dado deverá ir ao encontro de um verdadeiro diagnóstico dos cuidados de saúde.

A importância de entender os grandes números da qualidade dos serviços de saúde em Portugal são críticos para qualquer tomada de decisão estratégica/politica. É impossível melhorar o que não se conhece, tal como conhecer o que não se mede. Antes de melhorar, é fundamental conhecer a indústria e os grandes números do setor.

À semelhança da Uber, Airbnb, TripAdvisor etc., em empresas que se tornaram negócios da economia 4.0 existe sempre uma variável comum e que consiste na avaliação do serviço por parte do utilizador em tempo real. É imprescindível, como utilizador, utente ou consumidor, ter toda a informação para fazer a melhor escolha possível com base no custo, no nível de serviço e/ou na experiência do prestador do mesmo serviço. Acredito fortemente que a indústria da saúde deverá passar pela mesma reforma, garantindo que é o mercado e a indústria que se autorregulam, com base em factos que representam desempenho dos profissionais de saúde e, consequentemente, das instituições que os acolhem.