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Mais utentes na fila do guichê virtual

A telessaúde nasceu como conceito de distância mas tem crescido como ideia de proximidade, sobretudo nas cidades, onde os cuidados já estão perto

Há alguns anos para encontrarmos a farmácia de serviço tínhamos de dar algumas voltas até localizarmos a porta que estava aberta. Hoje, basta consultar a informação na internet e em alguns casos até pedir a dispensa ao domicílio. Os serviços à distância são cada vez mais procurados, sobretudo por quem tem acesso às tecnologias de informação e vive nos meios urbanos, precisamente onde a telessaúde não fazia sentido quando foi idealizada.

As novas gerações não querem estar perto dos serviços. Querem ir aos serviços sem sair de casa, do local de trabalho ou até do carro. O Serviço Nacional de Saúde (SNS) tem apostado nas tecnologias de informação em áreas diversas (ver caixa ao lado) e o progresso só não é maior porque a rede de computadores precisa de ser mais modernizada.
Mesmo com equipamentos aquém do ideal, a plataforma online do SNS já permite marcar consultas, verificar o tempo de espera para cirurgia, partilhar com o médico os resultados de exames ou apenas pedir uma justificação para o emprego. E para os mais jovens há até um boletim de saúde digital específico.

A interatividade marca presença mesmo nas áreas mais complexas, como a Urgência hospitalar, o serviço mais congestionado da rede pública. Os tempos médios de espera por gravidade clínica, as cores da Triagem de Manchester, são disponibilizados através da internet e o doente, que não está em situação de emergência, pode escolher o melhor momento para dar entrada no hospital.

Quase todas as soluções são da responsabilidade do Governo, através dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS). “Temos muito bons técnicos e engenheiros, mas necessitamos de profissionalizar mais, trabalhar mais a arquitetura, interoperabilidade, robótica e a inteligência artificial”, explica o presidente, Henrique Martins. Na prática, “o Estado tem de ter capacidade de entender que necessita de quadros, sob pena de ficar para trás em muita da modernidade de que necessita”.

Além das pessoas, são precisos equipamentos. “Temos sistemas legados, alguns com dez a 20 anos, em muitos casos muito fracos na capacidade de dar informação ao cidadão e na gestão de certos aspetos do acesso e da cibersegurança”, acrescenta. Henrique Martins deixa um recado à tutela: “Não se pode ter um SNS sem papel, resiliente e seguro, sem investir na formação e sem ter técnicos e equipamentos e sistemas adequados.”

Apesar das dificuldades, há casos de sucesso. “Temos sistemas muito bons e muitos altamente inovadores, como a receita sem papel ou a informação em tempo real sobre os tempos de espera nas Urgências”, afirma o responsável. Investigadora nas áreas de sistemas de informação na Saúde, Teresa Magalhães antecipa um pouco do que está para vir: “A era digital vai permitir uma mudança significativa na forma de prestar cuidados, colocando-os mais próximos do cidadão, melhorando e facilitando o acesso.”

A professora da Escola Nacional de Saúde Pública explica que a telessaúde — com os seus conceitos como teleconsulta, telemonitorização (aceder aos tempos de espera), telerrastreio de dermatologia (enviar fotos de um sinal ao médico) ou telefarmácia — “é facilitadora da integração, aproximando os profissionais dos diversos níveis de cuidados centrados no doente”. Ou seja, “o conceito de telessaúde deixou de ser um conceito de distância para passar a ser um conceito de proximidade”, conclui.

Utilizar o guichê virtual do SNS será, no entanto, mais fácil para os letrados e Teresa Magalhães defende que se aposte na preparação dos cidadãos. “O aumento da literacia da nossa população deve ser um objetivo primário do Plano Nacional de Saúde, com estruturas organizadas para prestar este tipo de ensino.” O presidente da SPMS concorda e avança com outro olhar sobre o novo mundo. “As tecnologias de informação em Saúde aproximam quem tem menos conhecimento e menos literacia dos que, tradicionalmente, tinham ou detinham todo o conhecimento. Daí que se tenha de garantir a infoinclusão para capacitar e envolver os utentes.” Assim sendo, “fazem falta ações de grande escala de literacia digital dos cidadãos, sobretudo os mais idosos que usam mais o SNS”.

Jurista na associação de defesa do consumidor DECO, Rosário Tereso não tem dúvidas de que “as tecnologias de informação permitem uma maior aproximação do consumidor com os cuidados de saúde, seja na vertente da informação, da gestão da saúde e da própria doença, bem como da própria prestação de cuidados”. A jurista acredita que estas tecnologias “terão um papel fundamental na transformação da prestação de cuidados de saúde” e sugere melhorias na plataforma online do SNS.

“As funcionalidades disponibilizadas na área do cidadão do portal do SNS ainda apresentam insuficiências, designadamente em termos de marcação de consultas”, diz Rosário Tereso. Além disso, “a falta de acesso ao processo clínico de forma simples e imediata pelo cidadão é uma lacuna que importa ultrapassar, bem como assegurar uma adequada interoperabilidade dos sistemas”.

Martins sabe que há falhas: “Falta maior harmonização dos processos e conjuntos de dados, faltam definições claras dos papéis dos vários atores, faltam registos centrais e sistemas robustos de identificação digital dos profissionais.” Para já, a equipa está “a trabalhar numa nova solução para os cuidados de saúde primários, na criação de uma comunidade MySNS app de Saúde para desenvolvimento de aplicações associadas à família de apps do Ministério da Saúde, na eliminação do papel na área dos exames e em ferramentas de defesa em caso de ciberataque”.

A segurança do que é partilhado é essencial, mas os responsáveis não dramatizam. Teresa Magalhães faz uma reflexão: “As questões da privacidade e da segurança dos dados serão um limitador para a geração de evidência e de conhecimento? Será importante também neste ponto que o doente conheça quais são os seus direitos e as condições em que a sua informação é disponibilizada.”

Serviço Nacional de Saúde Digital

Portal Criado no início 
do ano passado com o mote “Próximo de si”, agrega toda a informação de saúde 
e assegura um conjunto vasto de serviços. Através desta plataforma é possível ter acesso a atos já realizados em unidades públicas, por exemplo acompanhar a marcação 
de consultas, a renovação 
de receituário, os pedidos 
de isenção de taxas moderadoras ou até 
os termos do testamento vital (os cuidados autorizados em fim de vida)

Cidadão Os utentes registados no Portal podem utilizar a área dedicada 
aos utilizadores para solicitarem diferentes tipos de atos administrativos
e clínicos. É uma ferramenta prática que permite obter 
a declaração de presença numa instituição de saúde, marcar consultas para 
o médico de família, renovar a medicação crónica, 
aceder ao boletim de vacinas, ao guia de tratamento 
ou à posição na lista 
e demora previsível para uma cirurgia. É nesta “área 
do cidadão” que é possível partilhar os dados clínicos com os profissionais 
de saúde, carregar documentos como relatórios de análises ou de outros exames e registar informação sobre os hábitos, medicação, alergias, etc.
Pessoal A aplicação oficial do SNS, a app MySNS, orienta o utilizador dentro do sistema de saúde. 
Além de notícias e alertas 
de saúde, disponibiliza a lista e o mapa das instituições, incluindo da rede 
de farmácias

Tempo Primeira aplicação móvel oferecida pelos Ministério da Saúde, a app MySNS Tempos monitoriza 
o funcionamento 
dos hospitais públicos 
em tempo real. O utilizador consegue saber o tempo médio de atendimento 
na Urgência, com a respetiva localização geográfica
por GPS. Os serviços podem surgir por proximidade
ou localização no mapa

Papel O projeto ExamesSemPapel está 
em curso para que o suporte digital seja cada cada vez mais expressivo. Há já resultados na eliminação 
do papel em áreas como 
o receituário, com a receita em papel, ou a saúde infantil e juvenil, com o boletim eletrónico para marcar consultas, registar vacinas, entre outros atos

Visões: Transformação digital e análises inteligentes. Mas com pessoas dentro

José Pedro Almeida
Engenheiro, Director of Analytics & Data Science do Hospital de São João

Quando digo aos médicos que a análise inteligente 
de dados clínicos vai 
ser o seu estetoscópio 
do futuro, ouvem-me 
com relutância. A ideia 
de que um computador inteligente pode 
sobrepor-se ao saber 
que acumularam ao longo de décadas é certamente descabida. Apesar disso, este saber clínico será imensamente enriquecido com o apoio de algoritmos inteligentes, capazes 
de correlacionar milhões 
de variáveis clínicas em microssegundos (BigData).

Quem mais beneficiará deste progresso é o utente, e o utente somos todos 
nós. Nos próximos dez anos, a prática médica evoluirá mais do que nos últimos 50, e a grande revolução assenta no 
uso de Machine Learning para descobrir padrões 
nos nossos dados de 
saúde, que o olho 
humano não consegue 
ver.É natural que quem 
lida de perto com 
estas tecnologias, 
como eu, esteja a par 
da sua evolução e 
vislumbre o papel 
decisivo que terão 
no mundo digital. 
Trabalho todos os dias 
para que este futuro 
possa chegar mais cedo, 
e ajudar os médicos 
a salvar mais vidas.

Sofia C. Rocha
Médica, Presidente Comissão Tecnologias
de Informação em Saúde

Quando acreditamos 
que a transformação digital na Saúde é uma escolha das instituições caímos num erro crasso 
e incorremos em riscos 
em relação ao desenvolvimento de 
toda a sociedade. 
Esta transformação 
está a acontecer nas 
mais diversas áreas, imposta pela globalização. Os passos devem ser 
dados com a velocidade que encontre a evolução mundial e a realidade populacional do nosso 
país. Na nossa comissão procuramos medidas 
que promovam este encontro através da multidisciplinaridade 
das pessoas envolvidas 
e através da junção 
de realidades: de quem decide e de quem 
é alvo da decisão.

Toda a transformação implica gestão de mudança, investimento 
e educação, sendo 
sempre difícil. O ritmo 
de inovação imposto 
pelos Serviços Partilhados 
do Ministério da Saúde (SPMS), entidade responsável por este 
sector no Serviço Nacional de Saúde em Portugal,
 tem sido crucial para encontrar soluções à medida do nosso país, dos nossos cidadãos e profissionais. Iniciativas como o portal do SNS, 
o esforço ao redor 
da cibersegurança 
e a melhoria da interoperabilidade, 
têm sem duvida contribuído para sistemas de informação que melhoram a nossa Saúde.

Moisés Ferreira
Deputado do BE,
Curador do Health Parliament Portugal

Aproximar o SNS das pessoas deve ser um objetivo do país. A aplicação das novas tecnologias na área da saúde pode ser uma ferramenta importante para atingir este objetivo. Mas reconhecer esta importância implica reconhecer as dificuldades que lhes estão associadas.

Primeiro, não se pode cair na tentação de substituir o contacto humano pela interface do computador. Nada substitui a consulta, cara a cara, com o profissional de saúde.

Depois, para colocar as novas tecnologias ao serviço dos utentes, é fundamental olhar para a necessidade de investimento no SNS. Sem computadores que aguentem todas as aplicações e sistemas atualmente existentes, temos médicos que passam mais tempo de consulta numa luta com os computadores do que a ouvir o seu utente. Sem a renovação dos equipamentos, resta a obsolescência e a dificuldade de aceder a meios complementares de diagnóstico.

Em suma, as tecnologias devem ser uma ferramenta para universalizar e melhorar o acesso à saúde. Não podem nunca ser substitutas dos profissionais de saúde e só poderão ter eficácia num contexto de maior investimento.

CERIMÓNIA NO PALÁCIO

Último plenário a 30 de junho
O Health Parliament Portugal encontra-se na reta final. Ao longo de quase seis meses, 60 participantes trabalharam exaustivamente em cada uma das seis comissões. Barreiras aos Cuidados de Saúde; Economia do Conhecimento; Ética em Saúde; O Doente no Centro da Decisão; Tecnologias de Informação em Saúde e Saúde Mental foram os temas debatidos. No último plenário e após muito trabalho preparatório — em que foram consultados decisores políticos, ordens profissionais, economistas e vários profissionais de saúde — os deputados viram aprovadas 58 recomendações, sendo apenas uma chumbada. Estas medidas estão agora a ser afinadas e poderão ser aprofundadas até 30 de junho, momento em que serão apresentadas ao público numa cerimónia oficial de conclusão do projeto. No Palácio Nacional da Ajuda, num ambiente muito familiar para os governos (onde normalmente tomam posse), serão conhecidas as propostas para o futuro da sector que constarão do primeiro relatório de políticas para a saúde deste projeto inédito no nosso país, que é o Health Parliament Portugal.

Textos publicados no Expresso de 27 de maio de 2017