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"A resposta aos novos desafios só será conseguida com uma sociedade informada sobre saúde"

Pedro Antas, intern policy advisor, juntou-se à Comissão Ética em Saúde. Doutorado em Biologia Celular e do Desenvolvimento, lembra as vantagens que esta traz para o doente, mas também os desafios que lhe são inerentes

O que o fez querer participar neste projeto?

A filosofia do programa Health Parliament representa a necessidade interventiva da sociedade e o futuro das democracias. É esta premissa que me levou a concorrer. Os exigentes desafios contemporâneos obrigam a abordagens diferentes e a um olhar focado no futuro. Este programa vem exatamente ao encontro dessa estratégia, e por isso não poderia captar mais a minha atenção. É urgente aproximar pessoas de diferentes disciplinas, porque só essa sinergia permitirá encontrar novas e melhores respostas. Todos podemos fazer mais e melhor. Foi com esse espírito de equipa e de compromisso que concorri ao programa.

Estou também ciente de que, como cientista, o meu dever não passa só por novas descobertas, mas também por contribuir com pensamento crítico para todos os sectores da sociedade. Este é o contributo que quero dar com a minha participação neste programa.


Em que medida a sua experiência pessoal é uma mais-valia para o Health Parliament?

Sou doutorando em Biologia Celular e do Desenvolvimento no The Francis Crick Institute e os meus dias consistem em procurar respostas para problemas que podem não ter soluções simples. Procuro novas abordagens e tento implementar soluções criativas que permitam alcançar a melhor resposta possível. Estas qualidades serão certamente importantes para este Parlamento. Além disso, o The Crick é o maior centro de investigação biomédica da Europa, onde contacto frequentemente com colegas que mudam diariamente o futuro da saúde, como, por exemplo, a investigadora Kathy Niakan, a primeira cientista com autorização para a alteração genética de embriões humanos, e o investigador Robin Lovell-Badge, meu orientador secundário, envolvido na legislação de bebés triparentais. Ou ainda, no meu grupo de trabalho, onde a engenharia de tecidos para transplantação em humanos é um ramo de estudo. O facto de estar no centro destes avanços dá-me não só uma visão diferente sobre o assunto, como me tem permitido acompanhar de muito perto o debate social necessário para estes avanços biotecnológicos.

Além disso, recentemente trabalhei na Royal Society, como conselheiro político para o governo britânico, em duas áreas: “Futuros resilientes” e “Bem-estar”. Este trabalho deu-me a visão clara da importância de pensar estrategicamente o futuro e as ferramentas necessárias para o fazer.



Qual a melhor característica da saúde em Portugal? E a pior?

É inegável que nas últimas décadas houve políticas de saúde em Portugal que produziram resultados extraordinários no que respeita à saúde pública e proteção social, permitindo acesso a excelentes cuidados de saúde para todos.

O pior aspeto é a falta de uma estratégia a longo prazo. Além disso, há uma deficiente promoção da saúde e prevenção da doença no sistema de saúde português.

Dê uma ideia concreta para aplicar na saúde.

A inovação tecnológica e biomédica avança a uma velocidade impressionante, trazendo vantagens para o doente, mas impondo desafios económicos e sociais ao sistema. Muitas diferentes e novas ideias terão de ser implementadas, o que obrigará a um Sistema Nacional de Saúde maduro e capaz de se reorganizar constantemente. A resposta aos novos desafios só será conseguida com uma sociedade informada sobre saúde, o que implica a criação de programas específicos para a promoção da literacia em saúde, não só no que à biologia diz respeito, mas também à economia, gestão e ética.

Apesar de haver um Programa Nacional de Educação para a Saúde, Literacia e Autocuidados, este está muito aquém dos novos desafios. É fundamental uma abordagem alargada que envolva o sistema de educação. Confrontamo-nos já com questões críticas da saúde - orçamentos limitados, privacidade de dados, medicina personalizada, desafios bioéticos -, que conduzirão a um debate inevitável e cada vez maior, o que exigirá uma sociedade com um conhecimento aprofundado e que deverá começar desde muito cedo. As escolas terão também um papel fundamental, já que a educação será fundamental na promoção e proteção da saúde e do sistema de saúde. Os dois sistemas não podem continuar dissociados.