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“Não podemos condenar à morte um doente só porque não tem covid-19”

Projetos Expresso. Recuperação A reorganização súbita dos serviços de saúde provocada pela pandemia deixou muitas especialidades em suspenso e coloca agora os profissionais numa verdadeira luta contra o tempo para se adaptarem à nova normalidade. O uso alargado de ferramentas como a telemedicina e o acelerar da investigação científica podem representar um novo caminho. Hoje iniciamos a análise aos desafios que enfrentam Saúde Mental, Inovação e Valor em Saúde e Oncologia, três das seis áreas cobertas pelas comissões do parlamento da saúde

Saúde Mental
Pandemia pode atrasar verbas do OE

Era suposto ser o ano da mudança. A esperança do diretor do Programa Nacional de Saúde Mental, Miguel Xavier, residia nas verbas inscritas no Orçamento do Estado (OE), só que, entretanto, a pandemia explodiu e o sector corre, de novo, o risco de ver as reformas ficarem para trás. O que se pode tornar ainda mais grave porque a covid-19 resultou num aumento de patologias “ligadas à ansiedade e problemas de sono”, por exemplo. A presidente da FamiliarMente, Joaquina Castelão, fala de um agravamento de condições que resultou na incapacidade de muitas pessoas “terem a primeira consulta” e começarem a ser seguidas. Muitos doentes com tratamento estabilizado foram “reencaminhados para casa e perderam o contacto diário” e físico, com consequências que nem mesmo o recurso à telemedicina foi capaz de mitigar eficazmente. Retomar e reforçar são as palavras-chave e Joaquina Castelão exorta a que, “pelo menos”, o dinheiro previsto chegue aos serviços. “Há um conjunto de normas e regulamentos que devem ser revistos”, aponta, como o “modelo de cálculo de comparticipação dos medicamentos”, algo que ganha ainda mais relevância com o impacto económico da pandemia. Miguel Xavier garante que a covid-19 permitiu chamar a atenção para o “número muito elevado de consumo de medicamentos” antidepressivos, que em março disparou 28% face ao mês passado, “porque não há resposta” do sistema. O “grande desafio é retomar as metas do final de 2019. Não é necessário reinventar a pólvora”.

Inovação
Esforço para acelerar processos

“Todas as sinergias a que assistimos irão ter reflexo positivo na aprovação de novos medicamentos e vacinas”, diz Rui Ivo. O presidente do Infarmed destaca a “colaboração nacional e europeia” e acredita que “irá permitir acelerar os processos”. Os “ensaios clínicos são fundamentais”, acrescenta Eurico Casto Alves, diretor do Centro Hospitalar do Porto, e devem decorrer com todas as condições para, na fase de aprovação, se perceber “se o medicamento acrescenta algo”. A segunda fase “é a definição do preço e da comparticipação que o Estado quer ter”. A pandemia levou a uma mobilização generalizada das farmacêuticas na procura de respostas e levou a medidas “excecionais”, que não podem ser confundidas como “motivo para diminuir o rigor ou a robustez das decisões”, alerta Rui Ivo. “Nesta luta global contra a pandemia, o investimento em investigação foi reforçado e focalizado”, indica João Almeida Lopes, presidente da Apifarma, que destaca o “enorme desafio de passar de um paradigma centrado nos custos para um paradigma centrado no valor”. Para Eurico Castro Alves, “não podemos condenar à morte um doente só porque não tem covid-19”.

Oncologia
Atrasos no diagnóstico preocupam

Fernando Leal da Costa, antigo ministro da Saúde, não esconde a insatisfação perante uma situação que “já era delicada nomeadamente no acesso a diagnósticos e a cirurgias em tempo útil”. O professor do Instituto Nacional de Saúde Pública considera que “fomos empurrados para um confinamento geral” com “respostas sempre gerais, tardias e pouco centradas em grupos de risco”, ao passo que o “desconfinamento tem sido uma balbúrdia de contradições”. Esta semana foi revelado um surto de infeções em oito profissionais e 12 doentes internados no IPO de Lisboa, e, apesar de a instituição continuar a funcionar normalmente, os riscos da nova normalidade ficam à vista. A “perda de capacidade de tratar, médica e cirurgicamente”, e o receio “clinicamente comprovado de maior mortalidade entre os doentes com cancro e covid-19” gera atrasos na referenciação e tratamento de uma população mais idosa e mais vulnerável ao vírus, com consequências potencialmente graves. “O primeiro estudo sobre perda de doentes por atraso de diagnóstico foi feito na Holanda e indica 26% de perda de diagnósticos potenciais em abril de 2020”, revela. Já o diretor do Programa Nacional para as Doenças Oncológicas, José Dinis, garante que a prioridade é “acautelar o sucesso da intervenção terapêutica com a máxima segurança de todos os intervenientes num cenário desconhecido” e defende que “a reorganização dos circuitos garantiu a segurança dos contactos presenciais e que a maior disponibilidade de meios de telemedicina promoveu a proximidade de cuidados”. Perante as críticas, deixa a opinião de que “as opções tomadas têm minimizado o número de casos e a mortalidade da infeção covid-19 nos doentes oncológicos”

Health Parliament

O parlamento inteiramente dedicado à saúde é um projeto da Janssen, Universidade Nova e Microsoft, ao qual o Expresso se associa. No regresso do Health Parliament Portugal (HPP), após a pandemia, o Expresso faz o ponto de situação nas seis áreas fundamentais do sector e que os parlamentares do HPP vão trabalhar este ano: inovação, saúde mental, oncologia, tecnologia, recursos humanos e sustentabilidade. A SIC Notícias ouve vários especialistas nos próximos meses.

Textos originalmente publicados no Expresso de 20 de junho de 2020