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Receita para a etapa seguinte da pandemia? Reforçar

Projetos Expresso. Preparação A covid-19 continua a representar um desafio de vida ou de morte para a área da Saúde e por isso os profissionais alertam para a necessidade de se começar a pensar mais no futuro sem esquecer os desafios do presente. É o caso das áreas da tecnologia e integração de cuidados, sustentabilidade e equidade e recursos humanos em saúde, que analisamos nesta edição como parte do Health Parliament Portugal, após já termos traçado o retrato das restantes três áreas do projeto: saúde mental, inovação e valor em saúde e oncologia

Integração tecnológica
Aposta nas plataformas

“Se alguma coisa boa houve da pandemia foi o acelerar de um conjunto de plataformas tecnológicas”. Quem o diz é Isabel Vaz, que utiliza como exemplo as ferramentas de monitorização à distância e o maior recurso à telemedicina e às teleconsultas. A CEO da Luz Saúde não tem dúvidas que a “componente digital de acompanhamento de doentes acelerou e não vai acabar”, além de manifestar certezas quanto ao papel “absolutamente fundamental” da tecnologia na prestação de cuidados. Dados revelados esta semana pela secretária de Estado-adjunta e da Saúde, Jamila Madeira, mostram que o SNS assegurou mais de oito milhões de consultas não presenciais em 2020, o que representa uma subida de 65% relativamente a 2019. Para o professor da Escola Nacional de Saúde Pública, Adalberto Campos Fernandes, “a crise pandémica sublinhou a importância da ciência e da inovação” e deixou claro que a aposta dará um suporte “decisivo para a integração entre os diferentes níveis de cuidados contribuindo, desse modo, para colocar a centralidade no cidadão”. A generalização das novas formas de prestação de cuidados pode também ser um fator essencial para “assegurar a cobertura geral a toda a população, independentemente da sua condição económica e social”, acrescenta o ex-ministro da Saúde. Mudanças que ajudaram a aguentar o sector durante a pior fase da covid-19 mas que agora têm de ser reforçadas para lidar com outros desafios que continuam bem presentes e, noutros casos, têm tendência a piorar se nada for feito. “Estamos no século das pandemias e dos vírus”, defende Isabel Vaz, para quem, além do novo coronavírus, estamos perante uma “pandemia muito mais grave que é a dos estilos de vida”.

Sustentabilidade
Mais acesso

Óscar Gaspar avisa: “É urgente definir e pôr em marcha um plano extraordinário (e temporário) de retoma da atividade assistencial.” O presidente da Associação Portuguesa de Hospitalização Privada considera que “o aumento das listas de espera, cirúrgicas e de consultas e a não realização dos necessários exames de diagnóstico são hoje o problema número um da Saúde em Portugal”. Para resolver esse problema pode ser importante a portaria publicada em “Diário da República” esta semana, que estabelece os incentivos para a recuperação de consultas e cirurgias adiadas, com as equipas a receberem mais pela produção adicional interna, especificamente, com as primeiras consultas a serem pagas até 95% e as cirurgias até 75%. É essencial reforçar o acesso e a capacidade de resposta porque a pandemia vai “aumentar as desigualdades sociais”, aponta Alexandre Lourenço, presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares. “É um problema grave”, reforça, pois parece “que o mais problemático é a capacidade de o sector reagir de forma organizada ao pós-pico”. Entre outras coisas, continua Lourenço, importa fazer uma “avaliação aos doentes não-covid e perceber quais as populações mais afetadas”.

Recursos humanos
“Grito de alerta”

O SNS e o sector da Saúde no geral passaram com distinção o teste de fogo do pico da pandemia. Só que os problemas que vêm sendo apontados pelos profissionais não desapareceram de um dia para o outro. Os desafios “são praticamente os mesmos que existiam antes, mas agora tornaram-se mais visíveis e em jeito de grito de alerta, já que os profissionais de saúde estão mais cansados e todo o sistema mais desgastado”, assegura Miguel Guimarães. O bastonário da Ordem dos Médicos pede um “plano de recuperação muito exigente” com o “eventual recurso a outros sectores, como o social e o privado”, de modo a que “esta área reconquiste a centralidade que nunca deveria ter perdido. O responsável é da opinião que “a falta de recursos humanos fez-se sentir durante a pandemia, nomeadamente em áreas como a medicina intensiva, a medicina do trabalho ou a saúde pública” e explica que se foi “positiva a autonomia dada aos hospitais”, esta já está “infelizmente a ser revertida”. “A competência e o conhecimento técnico dos recursos humanos, aliados a uma disponibilidade e generosidade únicas” fizeram a diferença em todo o sistema, atesta o diretor do Hospital de São João, Fernando Araújo, que destaca a criação de “equipas multiprofissionais” e realça que “a preparação e a capacidade de antecipação, numa epidemia desconhecida, com uma dinâmica atípica, foram essenciais”. Sem esquecer que “a dimensão mais relevante nesta guerra contra a covid-19 foram as pessoas”. É com os profissionais que temos de ir à luta e Miguel Guimarães deixa um último aviso: “Não é possível recuperar pelo menos 90 mil cirurgias canceladas, milhões de consultas e de exames com os mesmos recursos”.

Textos originalmente publicados no Expresso de 18 de julho de 2020