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“A saúde não é só ir ao médico e aviar uma receita”

Projetos Expresso. Integração. A partilha de dados em saúde e a telemedicina são vistas como essenciais para dar melhores condições a profissionais e utentes

Tiago Oliveira

Jornalista

A pandemia acelerou uma série de tendências que já se faziam sentir na medicina, ao mesmo tempo que deixou a descoberto algumas situações para as quais os profissionais de saúde estavam a chamar a atenção. Seja nas condições do trabalho ou na ligação com os utentes. “A covid-19 veio revelar, por um lado, a falta de integração e de partilha de dados em saúde, o que dificulta um efetivo rastreio de contactos e monitorização epidemiológica, e, por outro, a falta de integração entre os cuidados de saúde e os serviços sociais”, expõe Pedro Prata Andrade. O coordenador da Comissão de Tecnologia e Integração de Cuidados do Health Parliament Portugal (HPP) — projeto do Expresso e da Janssen, companhia farmacêutica do grupo Johnson & Johnson, a que se juntam a Microsoft e a Universidade Nova de Lisboa, e cujos próximos passos pode conhecer melhor na caixa em baixo — acrescenta que a “envelhecida infraestrutura tecnológica” do sistema de saúde “se revela incapaz de suportar os serviços de telemedicina na extensão que estes devem ser prestados durante a pandemia”.

Dados de um estudo realizado pela GFK mostram que 775 mil portugueses tiveram uma consulta médica por este meio nos últimos meses, só que em 95% destes casos as consultas foram feitas por telefone e só menos de 5% tiveram transmissão de imagem. “A telemedicina é uma das áreas com maior capacidade de expansão e com maior potencial para equilibrar desigualdades e reforçar a proximidade dos cuidados de saúde aos utentes”, garante o parlamentar do HPP Jorge Pinheiro Santos. “No entanto, há um défice de suporte tecnológico para dar apoio a esta expansão, nomeadamente a nível de hardware. Além disso, é necessária maior divulgação e formação junto dos profissionais de saúde”, defende.

Mais próximos

“Por outro lado, a falta de instrumentos eficazes de armazenamento e integração de dados não permite aproveitar da melhor forma o grande volume de informação a que hoje temos acesso. Uma rede nova de centros de dados é fundamental”, assume Henrique Martins, ex-presidente dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS) e mentor do HPP. A aposta deve passar também pela mudança de mentalidades, porque “não há praticamente um euro gasto em iniciativas de literacia, nem digital nem de saúde, pelo Ministério da Saúde, e gasta-se mais de €1,2 mil milhões em medicamentos”, garante. Para o médico e professor universitário, o “país tem de entender que a saúde não é só ir ao médico, aviar uma receita e tomar comprimidos”. Passa também pelo “doente saber que, no fundo, estar no centro do sistema é não só um direito mas também uma responsabilidade”.

Mais de 1,26 milhões de pessoas já instalaram a StayAway Covid e a aplicação móvel de rastreio é um dos exemplos da utilização de tecnologia para colocar a saúde mais próxima dos cidadãos, apesar das polémicas relativas à utilização de dados pessoais e das dúvidas quanto ao seu funcionamento. “Falta uma lei enquadradora do uso secundário de dados. É fundamental ter uma lei específica”, alega Henrique Martins, onde também se deve enquadrar “o uso da inteligência artificial na saúde, que apresenta potencialidades imensas e pode salvar muitas vidas e dinheiro ao SNS, mas também tem desafios que merecem regulação”.

A automatização de processos é vista como algo essencial, e a deputada do PS Sónia Fertuzinhos destaca o seu papel no desenvolvimento de “ferramentas de apoio às decisões que facilitem o trabalho dos profissionais de saúde.” Segundo a mentora do HPP, estão a criar-se “algoritmos mais refinados”, que permitem, por exemplo, gerir mais racionalmente as idas às urgências, sem contar com o trabalho que teve de ser feito para responder ao aumento exponencial de chamadas da Linha Saúde 24. O serviço registou, em média, mais de sete mil chamadas por dia até setembro, o que totaliza cerca de 1,9 milhões e representa um aumento de 79% face ao mesmo período de 2019, de acordo com informações dos SPMS.

Há um “caminho a percorrer na recolha de mais e melhores dados”, argumenta Sónia Fertuzinhos, e, reconhece, o Governo “tem estado empenhado em ter informação melhor estruturada”. Para Henrique Martins, tal como “no pouco ou nada que foi feito de significativo” relativamente ao Plano Estratégico Nacional para a Telessaúde 2019-2022, é manifesta a “falta de vontade em mudar o paradigma de fazer saúde em Portugal, e nalguns contextos e cargos talvez falte também capacidade e competência”. Uma situação que dificulta, na opinião de Pedro Prata Andrade, “a existência de bases de dados completas, que poderiam estar na origem de melhores cuidados de saúde”.

Urgências de tecnologia e de cuidados

“Há vários projetos a serem desenvolvidos no âmbito digital e o objetivo é permitirmos uma maior capacidade de resposta e um afinamento do que fazemos. Temos que eliminar todos os fatores burocráticos que se revelem inúteis. E temos que integrar os cuidados de saúde, questão absolutamente fundamental, e, não menos importante, para a própria sustentabilidade do SNS”
Sónia Fertuzinhos Deputada do PS

“O principal problema identificado resume- -se em falta de integração, com dois ‘is’: a falta de integração de cuidados entre cuidados primários e hospitalares, entre prestadores públicos e prestadores privados e entre cuidados de saúde e serviços sociais, e a falta de integração e de interoperabilidade de sistemas de informação em saúde, algo que impossibilita uma efetiva integração”
Pedro Prata Andrade Coordenador da Comissão de Tecnologia e Integração de Cuidados do Health Parliament Portugal

“A integração de cuidados não se faz sem dotar todos os computadores do SNS de câmaras, microfones e colunas, de forma que todos se tornem pontos potenciais de telemedicina e telessaúde nas suas diferentes formas. E sem um investimento estratégico do SNS na capacitação dos doentes e em programas de inclusão digital, literacia digital e literacia para a saúde”
Henrique Martins Médico e professor universitário

Uma reunião diferente

25 de setembro marcou a data em que, após meses de interregno, os deputados do Health Parliament Portugal voltaram a estar todos juntos para o plenário de retoma. A reunião fez-se sobretudo por via digital e com a presença, à vez, num estúdio do edifício do grupo Impresa, de uma dupla de parlamentares de cada uma das comissões: Inovação e Valor em Saúde, Saúde Mental, Oncologia, Sustentabilidade e Equidade, Recursos Humanos em Saúde e Tecnologia e Integração de Cuidados. O terceiro plenário está agora previsto para 20 de novembro e servirá para proceder à votação das recomendações apresentadas pelos deputados, ao passo que no quarto plenário, a 15 de janeiro, haverá lugar à apresentação pública do trabalho feito pelos parlamentares. Para acompanhar em www.healthparliament.pt