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“Impacto no atraso do diagnóstico é dramático”

Projetos Expresso. Oncologia. As perturbações no sistema de saúde e os atrasos nas consultas preocupam na luta contra o cancro

Tiago Oliveira

Jornalista

Os dados são claros. De acordo com números do INE publicados no final de outubro, desde março deste ano houve mais 7396 mil mortes do que a média do período homólogo dos cinco anos anteriores, com a covid-19 a ser ‘apenas’ responsável por 27,5% do total de óbitos.

“Como a gestão do doente oncológico depende da prestação de cuidados hospitalares, o impacto foi significativo”, admite José Dinis, diretor do Programa Nacional para as Doenças Oncológicas. “Houve diminuição da capacidade de resposta por necessidade de reafetação de recursos e necessidade de remodelar a metodologia de prestação de cuidados clínicos e de suporte”. Numa altura em que a emergência pública provocada pela pandemia se agudiza, o médico explica que a “resposta dos serviços de saúde será sempre condicionada à evolução da pandemia”.

Informações divulgadas no portal do Serviço Nacional de Saúde dão conta do cancelamento de 96 mil cirurgias até setembro, enquanto um milhão e meio de consultas vão ficar por fazer. Estima-se que este ano termine com menos 12,5% das consultas médicas nos hospitais e menos quase 22% das cirurgias. O impacto manifesta-se também nos exames de prevenção, com o número de endoscopias realizadas nos primeiros sete meses deste ano a diminuir 41% face a 2019, ao passo que, por exemplo, neste período temos menos 26 mil mulheres com registo de mamografia.

Mais risco

Para o coordenador da comissão de Oncologia do Health Parliament Portugal, Diogo Martins Branco, “o impacto no atraso do diagnóstico é dramático e pode representar perdas irreversíveis em resultados de saúde, com significativo impacto nos custos”. Os doentes oncológicos são a “população de maior risco para mortalidade por covid-19” e, como resultado da pandemia, “viram-se privados de aspetos importantes na sua jornada de doença”. A falta de um “modelo de estratégia e governança”, a “ausência de continuidade entre os diferentes níveis de cuidados de saúde”, ou a “ausência de uma estratégia de acesso a inovação com valor para o doente oncológico” são os “problemas centrais”, de acordo com Diogo Martins Branco, que destaca “dois subgrupos de doentes particularmente vulneráveis, o idoso frágil e o doente em fim de vida”.

A pandemia obrigou o sistema de saúde a uma adaptação súbita sem precedentes, que colocou sobre renovada pressão um conjunto de serviços e profissionais que há muito alertam para a gravidade da situação. “Os doentes e os profissionais adaptaram-se a esta nova situação, mas conscientes de muitos aspetos negativos para as suas vidas”, considera Isabel Galriça Neto, médica de cuidados paliativos. Apesar das mudanças verificadas, “não se tem feito o devido investimento para corrigir esta desigualdade no acesso aos cuidados de saúde durante a pandemia”, em campos como a oncologia ou cuidados paliativos, “seja em recursos humanos capacitados, seja em dotar os serviços das condições de atendimento em segurança”, garante. Na opinião da ex-deputada do CDS-PP, “os doentes oncológicos têm sido, sobretudo nalguns locais e grupos, deixados para trás” e as limitações geraram “atrasos inaceitáveis, com prejuízos quer no diagnóstico quer no seguimento” dos doentes.

As dificuldades perante a situação são evidentes e José Dinis chama a atenção para a “emissão da Norma 009/2020, que procura identificar e padronizar um conjunto de procedimentos com vista à reconfiguração de cuidados”. O responsável revela também que Portugal “encontra-se no processo de migração de um registo oncológico baseado em registos regionais independentes para um modelo integrado nacional”. A expectativa é que com “a publicação do primeiro relatório do Registo Oncológico Nacional, esperado para este ano, se assinale o início de uma monitoração mais ativa dos dados em oncologia”, confia o responsável.

O acesso à inovação terapêutica em oncologia “está agora mais ordenado e simplificado e, acima de tudo, mais justo e com maior equidade nacional”, defende o diretor, com a ressalva de que ainda não existem “métricas que ilustrem esta impressão. Gostaríamos de implementar um programa de monitorização, em tempo real, do tempo que decorre entre a aprovação europeia de um medicamento e o seu acesso universal no SNS”, conta.

Do lado do Health Parliament, as “recomendações que irão surgir do trabalho desta comissão [de oncologia] preveem modelos de governança apoiados na inteligência colaborativa entre diversos sectores primordiais”, aponta o deputado Hernani Zão Oliveira. “Nunca esquecendo que a prioridade se deve centrar no doente e no seu bem-estar”.

Urgências da oncologia

“A baixa literacia em oncologia afeta os diversos níveis dos cuidados. O sucesso depende da multidisciplinaridade, da colaboração e integração dos cuidados de saúde, muitas vezes dependentes da colaboração de múltiplas instituições do SNS. Promover a integração harmoniosa dos recursos atualmente instalados é o principal desafio para os próximos anos”
José Dinis, Diretor do Programa Nacional para as Doenças Oncológicas

“O principal problema da oncologia é a falta de acesso dos doentes a um padrão standardizado de cuidados de qualidade, com cobertura nacional, e que inclua o acesso à inovação, quer os doentes se curem ou não. Não se podem privar os doentes mais vulneráveis, os que carecem de cuidados paliativos, e são milhares, da intervenção no sofrimento, que lhes é devido”
Isabel Galriça Neto, Médica de cuidados paliativos

“É necessária a otimização do percurso do doente, sabendo que a oferta é por vezes ineficiente. É necessária também uma integração dos níveis de cuidados, disponibilidade de dados, promoção de literacia e uma estratégia para acelerar o acesso à inovação”
Diogo Martins Branco, Coordenador da Comissão de Oncologia do HPP

Próximos passos

A caminho da reta final da 2ª edição, o Health Parliament Portugal prepara-se para selecionar as primeiras medidas sugeridas pelos deputados das comissões de Inovação e Valor em Saúde, Saúde Mental, Recursos Humanos em Saúde, Sustentabilidade e Equidade, Tecnologia e Integração de Cuidados, e Oncologia. O 3º plenário do projeto que junta Expresso, Janssen, Microsoft e Universidade Nova realiza-se na próxima sexta-feira (20 de novembro) e servirá para proceder à votação das recomendações resultantes de meses de trabalho dos parlamentares. No quarto e último plenário, a 15 de janeiro, terá lugar a apresentação pública das medidas escolhidas, que serão posteriormente entregues às autoridades públicas. Para acompanhar nas páginas do semanário Expresso, na antena da SIC Notícias e AQUI.

Textos originalmente publicados no Expresso de 13 de novembro de 2020