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A viagem de seis ‘deputados’ da saúde pela pandemia

Projetos Expresso. Relatos. Entre um impacto súbito e a certeza de que nada será como dantes, profissionais do HPP partilham as suas experiências

Tiago Oliveira

Jornalista

O médico presidente do Health Parliament Portugal (HPP), Francisco Goiana da Silva, não tem dúvidas de que o trabalho desenvolvido pelos ‘deputados’ do projeto ao longo desta segunda edição ganhou ainda mais relevância, porque, “vendo as suas vidas impactadas pela pandemia de forma importante”, os participantes “nunca desistiram nem abriram mão da sua missão de apresentarem soluções”. Alerta para “os preconceitos ideológicos de quem dá primazia às ideologias face à capacidade de gestão” e defende que, “por muito que a pandemia tenha impactado as prioridades”, não “devemos colocar o futuro de parte. A isso chama-se planeamento”, atira. Planeamento foi o que a covid-19 obrigou os participantes do HPP a fazer. A viagem de seis, um por comissão, pelos meandros da pandemia.

“FAZER EXERCÍCIO, BRINCAR E IR À MISSA, VIRTUALMENTE”

Mariana Caetano Cosme, deputada da Comissão de Tecnologia e Integração de Cuidados, tem filhos com três e cinco anos. Vai aos primeiros dias e descreve tempos “de ansiedade”. No seu trabalho enquanto farmacêutica hospitalar tomou desde cedo uma decisão: “Como mãe, esposa, filha e irmã, senti sempre que devia levar alegria para casa ao final do dia.” Até porque, realça, “temos que ter noção de que para uma criança pequena um ano de pandemia representa muito tempo da sua vida”. No que toca à sua rotina, nunca deixou “de fazer exercício físico, de brincar e de ir à missa, virtualmente”, ao mesmo tempo que se esforçou por “esquecer um pouco o telefone e as notícias”, quando possível. É a forma de desanuviar quando tudo parece mais difícil, quando os profissionais de saúde abdicam muitas vezes dos seus “direitos” e da sua “vida pessoal”. “E é esse o impacto que sinto também na minha vida pessoal, que se desequilibra com a profissional”, confessa.

“NÃO PODER ESTAR COM AS PESSOAS DE QUEM GOSTAMOS É DURO”

Lino André Olmo, deputado da Comissão de Sustentabilidade e Equidade, fala em “adaptação” para descrever as primeiras semanas de impacto da covid-19. “Foi necessário redefinir todas as prioridades e adaptarmo-nos a uma realidade diferente todos os dias”, reforça o auditor interno da Unidade Local de Saúde do Nordeste. “Sou uma pessoa de afetos, de toque. Não poder estar com as pessoas de quem gostamos é duro”, recorda, para depois acrescentar: “Na minha área de residência, uma zona com um índice de envelhecimento elevado, os lares foram muito afetados. Quase toda a gente tem ou conhece bem alguém que teve pai, mãe ou avós afetados. Fica depois o sentimento de impotência”, descreve. Para Lino André Olmo, o “regresso ao confinamento significa voltar à fase de adaptação, principalmente no que diz respeito ao acompanhamento dos nossos filhos”, com a certeza de que, se “não fosse o profissionalismo, a abnegação e a resiliência” dos profissionais de saúde, “a situação seria ainda muito pior”.

O “CANSAÇO QUE NÃO PERMITE A EFICIÊNCIA DE OUTRORA”

“Olhava para a minha agenda e sentia-me realizada. Os meus amigos e a minha família viam-me cansada, mas feliz. Até que, não anunciada, entra uma pandemia nas nossas vidas.” É assim que Joana Ramos olha para a entrada da covid-19 na sua rotina, numa fase em que nem por isso deixou de estar “otimista”, explica a deputada da Comissão de Saúde Mental. “A fase inicial foi como uma dormência e a expectativa de passar rápido, visto os números que tínhamos comparativamente ao que acontecia em Itália, por exemplo. Senti-me bem, orgulhosa como portuguesa”, relata. “Porém”, acrescenta, “marcou-me o dia em que regresso a um transporte público para me deslocar a Lisboa. O que vi, como me senti, com medo e insegurança, desmoronou a minha crença nesta população, até então cívica, e nas medidas políticas”. Foi o momento de viragem para a médica psiquiatra, que viu os seus receios confirmados com a segunda e terceira vagas, que trouxeram “maior exigência profissional”, a que se junta um “cansaço que não permite a eficiência de outrora e uma predição de que haverá cada vez mais casos na área da saúde mental”.

“QUE NÃO TENHAMOS MEMÓRIA CURTA”

Licenciado em Biologia e Jornalismo, com um mestrado em Oncologia e outro em Educação para a Saúde, Hernâni Oliveira divide os interesses por várias áreas e a multidisciplinaridade tem sido uma arma. O início da pandemia viu-o sair do Porto para Évora. O que seria “começar um novo capítulo” passou a “primeiro confinamento sozinho”, conta. “Enquanto sobrevivente oncológico em acompanhamento, senti o peso da incerteza sobre o impacto da doença no meu quadro clínico”, partilha. Hernâni Oliveira fazia também por garantir que os “familiares cumpriam”. Como aconteceu com o cabeleireiro da mãe, para o qual desenhou “toda a sinalética e plano de contingência, garantindo a sobrevivência do seu negócio”. Entre outros marcos, houve também oportunidade para inovar, através do desenvolvimento de “um videojogo para detetar a fragilidade em doentes covid-19 recuperados. Hernâni Oliveira acredita que se é certo que “houve muitos erros evitáveis, houve também muita falta de compreensão sobre o que é governar em períodos em que a incerteza se sobrepõe à maioria das estratégias”, a que se junta um pedido: “Que não tenhamos memória curta.”

A “MÁGOA” DO DESAPROVEITAMENTO DOS “ESFORÇOS COLETIVOS”

Maria Teresa Oliveira utiliza as reuniões do Health Parliament Portugal como exemplo. “Quando retomámos os trabalhos”, relembra, “tivemos de nos reorganizar, como todo o país e o mundo, verdadeiramente dependentes de uma plataforma online. Marcámos as reuniões em horário pós-laboral e debatemos as ideias o melhor que conseguimos, tendo em conta que muitos membros da comissão estavam ausentes dada a situação”, explica a mestre em Gestão de Saúde Internacional e licenciada em Enfermagem. Foi um período desafiante, em que, ainda assim, foi possível à deputada da Comissão de Recursos Humanos em Saúde “clarificar ideias preconcebidas” e “perceber a gestão e o pensamento estratégico necessários tendo em conta a equipa ou o orçamento de que se dispõe”. Por outro lado, fica a mágoa do não aproveitamento dos “esforços coletivos iniciais” na gestão da pandemia.

“A PANDEMIA TAMBÉM NOS VEIO TRAZER MAIS OPORTUNIDADES”

“Os primeiros dias foram assustadores, porque na minha aldeia [em Coruche, distrito de Santarém] tivemos casos confirmados de covid-19 poucos dias depois de o primeiro surto em Portugal ter sido identificado”, esclarece Luís Neves. Doutorado em Engenharia Biomédica, o deputado da Comissão de Inovação e Valor em Saúde participa atualmente em projetos de inteligência artificial e diz que tem “sempre adotado medidas de proteção preventivas de um modo proativo”, pelo que, “antes de ser imposto o confinamento”, já se encontrava a fazê-lo, ao passo que, em termos profissionais, estabelece “horários mais rigorosos, para evitar situações que possam levar a um desequilíbrio entre trabalho e lazer”. Luís Neves é de opinião de que “a pandemia também nos veio trazer mais oportunidades, pois agora é possível, por exemplo, participar numa conferência em Coimbra de manhã e outra nos EUA a seguir ao almoço”.

O livro da 2ª edição

Ao longo de mais de um ano, quatro plenários e muitos debates entre comissões, a segunda edição do projeto que junta Expresso, Janssen, Microsoft e Universidade Nova deu a conhecer, a 15 de janeiro, as 45 recomendações resultantes dos trabalhos promovidos pelos 60 deputados do HPP e prepara-se agora para lhes dar novo formato, sob a forma de um livro. Será composto por uma análise macro do panorama do sistema de saúde no país, assim como um relatório dedicado a cada uma das áreas de trabalho — Tecnologia e Integração de Cuidados, Sustentabilidade e Equidade, Saúde Mental, Oncologia, Recursos Humanos em Saúde e Inovação e Valor em Saúde — pelas quais se dividiram os esforços dos participantes durante um período em que os desafios pessoais nunca pararam de surgir, como pode, aliás, perceber pelo texto principal.

Textos originalmente publicados no Expresso de 12 de fevereiro de 2021